sábado, 17 de dezembro de 2016
quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
Sobre os trabalhos de casa
Sobre os trabalhos de casa
Há quem ache que todas as crianças a frequentar uma escola devem fazer trabalhos de casa, pois estes complementam o que aprendem na escola, e há quem ache que não, pois são uma sobrecarga para as mesmas que já têm um horário muito sobrecarregado durante o dia e que devem ter tempo livre para as suas brincadeiras.
Sobre este assunto têm tomado posição alguns conselhos pedagógicos das escolas, alguns dos quais caindo no erro de deliberar sobre tudo, mesmo sobre assuntos que não são de natureza pedagógica, e, pior do que isso, pretendendo uniformizar tudo, quando o mais sensato seria dar autonomia aos docentes, pois são eles que estão em contato direto com os alunos que são todos diferentes uns dos outros.
Há países que chegam ao extremo de possuir legislação sobre os trabalhos de casa, como a Bélgica. Segundo uma notícia do jornal público, de 2001, as crianças belgas do 1º e 2º ano, entre os seis e os oitos anos, estão proibidas de fazer trabalhos de casa, os do 3º e 4º anos poderão despender no máximo 20 minutos por dia, os do 5º e 6º anos, meia hora e para os restantes “os TPC devem ter uma "cadência razoável" que permita aos estudantes gerir o seu tempo de maneira a que se possam envolver em atividades desportivas e culturais, ou simplesmente, divertir-se”.
Considero que legislar sobre os trabalhos de casa é um exagero que deveria ter sido evitado, pois, para além de ser um sinal de desconfiança nos docentes, trata-se de menosprezar o profissionalismo dos daqueles que são quem conhece as necessidades dos alunos e o que deverá ser feito para ultrapassá-las.
A legislação belga referida, também, determina que os trabalhos de casa não contam para a avaliação dos alunos, evitando-se assim “qualquer tipo de discriminação daqueles que não podem ser ajudados em casa”. Sobre este assunto uma colega minha costuma dizer que embora nada tenha contra os apoios que os pais arranjam para os filhos fora da escola, não é avaliadora destes, de explicadores particulares, nem de centros de explicações.
Em Espanha, muito recentemente realizou-se uma campanha intitulada “Fins de semana sem trabalhos de casa” e penso que ainda está a recolher assinaturas uma petição sobre trabalhos de casa.
Embora não seja radicalmente contra a realização de trabalhos de casa, acho que a maioria dos alunos já tem uma sobrecarga letiva pelo que não podem ser massacrados com trabalhos de casa muitas vezes repetitivos e que só os poderão levar a perder o gosto pelas aprendizagens.
Apesar do referido, considero que os alunos, nos primeiros anos de escolaridade, poderão fazer pontualmente alguns trabalhos de casa de duração muito reduzida e deverão fazer pequenos trabalhos de pesquisa para complementar o que aprenderam nas aulas. Os alunos do ensino secundário, atendendo às exigências do mesmo, não podem descurar o estudo em casa e mesmo sem serem obrigados pelos professores devem fazer exercícios de aplicação dos conhecimentos adquiridos e aprofundar alguns temas abordados nas aulas.
O que não pode acontecer é continuar a situação atual, onde muitas vezes as aulas são demasiadamente expositivas e onde não há espaço para que os alunos realizem trabalho autónomo, sempre sob a orientação do professor, e aprendam a responsabilizar-se pelos trabalhos que devem fazer para serem bem-sucedidos nos seus estudos.
A petição referida, entre outros pontos, menciona que os trabalhos de casa repetitivos e abusivos não contribuem para melhorar o rendimento escolar e afetam de forma negativa a felicidade das crianças e a qualidade de vida das famílias e pede para que os trabalhos de casa sejam racionalizados, de modo a que os mesmos sejam feitos num tempo razoável e de acordo com as idades dos estudantes.
A petição também sugere que os trabalhos de casa devem ser “acordados” entre os diferentes professores de modo a que, conhecedores do tempo de cada um, não se traduzam numa carga excessiva para cada aluno.
Em síntese, estamos perante um conjunto de questões que se resolveriam com bom senso, sem qualquer necessidade de recorrer a petições e legislações, numa escola verdadeiramente do século XXI.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31096, 7 de dezembro de 2016, p. 16)
terça-feira, 29 de novembro de 2016
Do ensino
Do ensino
1- Mudar a rota
Através da comunicação social tomei conhecimento de que um grupo de professores pretende instalar na ilha de São Miguel uma escola inspirada na Escola da Ponte que teve como principal impulsionador o pedagogo José Pacheco.
Desconheço o que terá levado os mencionados professores a pensar numa escola diferente, mas penso que não estarei longe da verdade se disser que as principais causas serão a sua insatisfação relativamente ao funcionamento das nossas escolas e aos métodos de ensino usados, que não despertam qualquer interesse nos alunos já de si desmotivados e que fazem com que muitos deles nada ou muito pouco aprendam.
Ultrapassadas as barreiras burocráticas, considero que o resto será mais fácil, pois como escreveu, recentemente, José Pacheco todos os tratados que visam salvar a educação já estão escritos, só falta “refundar a escola, salvar a educação, sair da zona de conforto”.
Espero que os meus colegas envolvidos no projeto Novas Rotas sejam bem-sucedidos e que pelo menos algumas crianças desta terra tenham a possibilidade de serem educados para e na autonomia.
2- Pregar no deserto
Há turmas, principalmente de alunos mais novos, em que nem uma pequena exposição feita pelo professor é seguida com atenção, havendo mesmo alunos que não são capazes de não se distraírem durante a projeção de um pequeno vídeo de dez minutos.
Vem de longe o combate ao ensino expositivo que não motiva e cansa os alunos e que acaba por ser doloroso para os próprios professores, pois não veem o seu esforço compensado.
Sobre este assunto, já em 1900, o jornal “Estrela Oriental”, num texto não assinado, escreve que o que é preciso fazer é “a educação da inteligência e do coração, o cultivo de todas as faculdades, a formação do homem e do cidadão. Ora tudo isto exige esforço pessoal, cooperação efetiva do discípulo no trabalho do Mestre, incessante colaboração na sua obra, segundo o adágio de um pedagogista moderno: “ o que faz o mestre é pouco, o que faz fazer é tudo…”
Quase todos os dias, ouvimos vários professores desanimados por terem tanto trabalho na preparação das aulas e não obterem os resultados esperados por parte dos alunos. Cada caso é um caso, não sendo possível a generalização, mas se é verdade que há turmas em que há alunos interessados e que conseguiam adquirir os conhecimentos constantes dos conteúdos programáticos, independentemente dos métodos, ativos ou passivos, usados pelos professores, há outras em que se os alunos não forem envolvidos ativamente na aquisição de conhecimentos nada aprenderão.
O jornal referido, acima, relata o caso de um jovem professor que deu uma aula magistral mas que foi um fracasso pois os alunos interrogados sobre a mesma nada souberam responder.
Interessante foi o diálogo entre o professor e o inspetor que havia assistido à aula e que abaixo se transcreve:
“Amigo, acaba de dar uma lição que muito me interessou”- “Ah! Respondeu o outro, dei-a com toda a alma, mas o êxito não correspondeu aos meus esforços: os pequenos ficaram tão ignorantes como estavam; talvez não me tivessem compreendido”. – “E, contudo, eles estiveram atentos ou pelo menos sossegados; verdade é que eu estava aqui; se não fosse isso, talvez se tivessem distraído. O amigo falava, mas eles não diziam nada. Amanhã serei eu que hei-de dar a lição. Em vez de dizer aos discípulos como eles devem fazer, trabalharei com eles, em vez de lhes dizer como e onde se encontram as ideias, eu as buscarei com eles, segundo o conselho de Montaigne: “ Não quero que o mestre seja o único que invente e fale na escola; quero que ouça e faça falar também o discípulo”.
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31093 de 30 de novembro de 2016, p. 13)
sexta-feira, 11 de novembro de 2016
terça-feira, 8 de novembro de 2016
António Sérgio e a Educação
António Sérgio e a Educação
António Sérgio considerava-se um “pegagogista” que pretendia agir na mentalidade “dos que hão-de ensinar à nossa “arraia-miúda” a maneira pacífica de se libertar a si mesma, sem cair na dependência em relação a magnates, a politicões, a tribunos, que são simples instrumentos, mais ou menos conscientes, do bando de argentários que domina a Grei”
Embora a sociedade e a escola de hoje não são as do tempo em que viveu António Sérgio, pensamos que a primeira não deixou de ser “fortemente oligárquica” e a escola de hoje tal como a do passado “não dá cultura”. António Sérgio escreveu: “Falando em geral, o amor das ideias é bem raro aqui. A escola portuguesa não nos inspira esse amor. Muito pelo contrário: só pode incutir-nos o horror às ideias, à leitura, ao estudo”.
António Sérgio distinguia elites de oligarquias. Segundo ele, elite era uma “minoria dos melhores que estrutura uma nação, que a orienta e que a torna orgânica, que a inspira com o objetivo de se tornar dispensável, de preparar o povo para se governar por si próprio; que a norteia, em suma, não para o bem dessa minoria, mas para o benefício de todos nós, dando pois à sociedade muito mais do que dela recebe”. Por outro lado, oligarquia “é a minoria dos graúdos piores, a qual manda num país…para quê? Para sempre o sacrificar aos seus interesses.
Segundo António Sérgio, a Educação ao invés de formar elites estava a formar oligarquias, isto é “gente, pois, que recebe mais (muito mais) do que aquilo que dá”.
Hoje, quando algo corre mal na sociedade a solução encontrada é sempre sobrecarregar as escolas. A juventude toma drogas ilícitas, faz-se uma sensibilização, há muita gravidez na adolescência, toca a impingir educação sexual, há uma crise económica enfia-se um projeto sobre empreendedorismo, pretende-se pintar de verde algumas atividades governamentais e autárquicas, manda-se implementar o projeto eco-escolas, há poucos eleitores a votar, cria-se o orçamento participativo escolar, etc., etc.
Acreditam eles ou fingem acreditar que os males e a salvação estão na escola. Puro engano, que António Sérgio já havida denunciado ao falar na escola portuguesa nos seguintes termos: “A escola exprime a sociedade, dá o que lhe pedem; e ninguém lhe pede educação, mas diplomas – sendo certo, no entanto, que os que pedem diplomas para seus filhos, e só diplomas, foram educados no seu tempo pelas escolas portuguesas”.
A grande ilusão dos decisores é querer resolver os problemas através da escola quando há muita vida para além dela. António Sérgio sobre esta questão disse: “Quanto a mim parece-me que os males de que nos queixamos são fatalíssima consequência da estrutura da sociedade, - e que só portanto terão remédio se nos metermos firmemente a transformar essa estrutura, o que não é possível com pregações, nem com politica de autoritarismo, nem com reformas só pedagógicas, - mas com reformas sociais e pedagógicas concatenadas, entrelaçadas como fios de um tecido único, as quais preparem o nosso povo para o uso razoável da liberdade e para empreender por si mesmo a sua emancipação social-económica”.
Há quem ache que a educação deve servir para adaptar a criança à sociedade em que se vive. António Sérgio acha que não e escreve: “No seu papel de organizadora de atividades, a educação não tem por objeto manter a estrutura da sociedade de hoje; tem por objeto melhorá-la, revoluciona-la”.
Hoje, fala-se muito e pouco se faz em relação à autonomia da escola e dos alunos. António Sérgio também defendia “uma escola do trabalho e da autonomia, do labor profissional e da iniciativa – uma escola útil para a vida”. Segundo ele “Uma carneirada escolar dá uma carneirada administrativa, e um decorador de compêndios, um amanuense; mas se cada escola for uma cidade, um laboratório, uma oficina; se conseguirmos desloca-la do enciclopedismo para a criação – o aluno ao sair irá marcado, terá amoldado o seu espírito à iniciativa produtora e virá a ser para a sociedade uma fonte de progresso”.
Mas, para António Sérgio, a autonomia não podia ser só para e na escola. Com efeito, António Sérgio considerava que a mesma devia ser uma meta de toda a sociedade, como se pode concluir da leitura seguinte extrato: “Quanto a mim, actuo a favor do ideal democrático, é certo; mas repetindo mil vezes a afirmação do Proudhon: “democracia é demopedia, democracia é educação do povo”. É treino do operário para se governar a si mesmo através das cooperativas e dos sindicatos, da estrutura do município e da província (associação de municípios), sem necessidade de chefes ou de mandões…”
Teófilo Braga
(Correio dos Açores, 31076, 9 de novembro de 2016, p.11)
terça-feira, 1 de novembro de 2016
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